Redes Sociais e Autoestima em Adolescentes: O Que a Ciência Revela
Estudo brasileiro com 60 adolescentes revela que 62% têm baixa autoestima e 54% sofrem de ansiedade. Descubra os mecanismos que ligam as redes ao sofrimento emocional.

Sessenta e dois por cento.
É a proporção de adolescentes brasileiros entre 14 e 18 anos que pontuaram baixo na Escala de Autoestima de Rosenberg num estudo recente. Cinquenta e quatro por cento da mesma amostra apresentaram ansiedade de moderada a grave.
Números assim costumam servir a alarmismo. Servem melhor a outra coisa: mostram que o desconforto de atualizar a página para conferir curtidas não é experiência isolada de ninguém. Na pesquisa sobre autoestima ansiedade redes sociais adolescentes, esse gesto aparece como padrão sistemático.
Oito pesquisadores brasileiros — psicólogos, neurocientistas e educadores da Universidade Católica de Brasília, da UFSC e da UFMG — investigaram a pergunta que parece simples na superfície: o uso excessivo de redes compromete de fato a autoestima e a saúde mental na adolescência?
Aplicaram a Escala de Rosenberg e o Inventário de Ansiedade de Beck em 60 estudantes do ensino médio. E combinaram os instrumentos com rodas de conversa, onde os jovens falavam livremente sobre a própria experiência. Medir e escutar, em vez de apenas medir.
62% com baixa autoestima. 54% com ansiedade moderada a grave. A correlação com o tempo de tela foi clara e estatisticamente significativa.
Comparação Sem Pausa
Nas rodas de conversa, um padrão apareceu com insistência: os adolescentes se comparam de forma contínua, não ocasional.
Comparam aparência — o corpo que não têm, o rosto sem filtro. Comparam desempenho acadêmico — a nota que não veio, o curso que não passou. Comparam estilo de vida — a viagem, o evento, o convite que não chegou.
O nome técnico é comparação social ascendente, e o feed lhe dá um amplificador que nenhuma geração anterior conheceu. O que aparece na tela não é a vida de ninguém — é o melhor take de cada momento, editado e escolhido.
O adolescente compara os próprios bastidores com o palco alheio.
O Termômetro Externo
Outro tema forte nas narrativas: a dependência de validação por curtida, seguidor e comentário. As métricas viraram termômetro de autoestima. Engajamento alto, humor sobe. Engajamento baixo, valor pessoal desaba junto.
Os pesquisadores observam que essa dependência corrói a autonomia emocional — a capacidade de reconhecer o próprio valor sem consulta externa. E o ciclo se realimenta: a satisfação obtida é curta, e exige nova postagem para se renovar.
Saber e Não Conseguir
O dado mais revelador das rodas de conversa talvez seja este: os adolescentes reconhecem os prejuízos.
Sabem que passam tempo demais. Sabem que a comparação faz mal. Sabem que curtida não substitui segurança interna.
E não conseguem mudar.
Essa dissonância entre saber e agir é a assinatura de comportamentos sustentados por mecanismo compensatório. Não indica preguiça nem falta de informação. Indica que o desenho das plataformas, com recompensa intermitente, fala mais alto que a intenção consciente.
Duas teorias sustentam a interpretação desses achados.
A Teoria da Autodiscrepância, de Higgins (1987), estabelece que a distância entre o eu real — como a pessoa se vê — e o eu ideal — como gostaria de ser — produz consequência emocional previsível: tristeza, frustração e, quando a distância é grande, ansiedade e sintomas depressivos.
O feed amplia essa distância por saturação. Está cheio de eus ideais alheios: corpo malhado, viagem paradisíaca, relacionamento perfeito, aprovação em concurso. Cada postagem bem-sucedida funciona como evidência silenciosa de que seria possível estar fazendo mais.
A Teoria da Autoestima, de Rosenberg (1965), acrescenta a peça que falta. Autoestima não é traço fixo nem inato; constrói-se na interação entre autopercepção e feedback recebido. Quando o feedback passa a ser contabilizado em curtidas, a âncora interna se perde e o valor pessoal fica refém de uma métrica volátil.
Você já conferiu quantas curtidas uma foto recebeu poucos minutos depois de publicar? Já sentiu a pontada ao ver alguém vivendo exatamente o que você gostaria de estar vivendo? Já continuou rolando o feed sabendo que aquilo não estava fazendo bem?
Nada disso é exceção. É regra.
A pergunta que o estudo devolve não é sobre culpa. É sobre autoria: que parte dessa experiência é escolha consciente, e que parte é o design das plataformas operando sobre uma vulnerabilidade conhecida?
Autoestima não precisa ser vítima silenciosa do algoritmo. Para deixar de ser, porém, o ponto de partida não pode ser força de vontade. Precisa ser compreensão do mecanismo.
Limites
Os autores reconhecem as restrições. Sessenta participantes de uma única cidade de porte médio impedem generalização ampla. O desenho transversal não autoriza afirmar que o uso excessivo causa baixa autoestima e ansiedade — adolescentes já vulneráveis podem procurar mais as redes como refúgio, num ciclo de retroalimentação.
A força do trabalho está na triangulação. Quando 62% pontuam baixo na escala e relatam nas entrevistas sensação de inadequação após usar as redes, a convergência entre número e narrativa vale mais que qualquer um dos dois isolado.
As recomendações para pesquisa futura são as previsíveis e necessárias: acompanhamento longitudinal dos mesmos adolescentes, incorporação de medidas fisiológicas e comparação entre contextos culturais e socioeconômicos distintos.
Os números brasileiros não são diagnóstico. São mapa. Indicam onde o terreno é mais instável e onde faria sentido colocar sinalização antes que mais gente tropece.
A pergunta que vale carregar não é sobre excesso de uso. Essa já foi feita muitas vezes. A mais precisa é outra: o que está sendo procurado quando o aplicativo abre — e a rede tem, de fato, aquilo para entregar?
Referência principal: Lira, P. P. M., Stoeckl, K., Cunha, S. C. M., Cunha, E. Q. M., Kraisch, R. J., Ribeiro, N. H. V., Alves, G. B. P., & Oliveira, P. T. G. (2025). O Impacto do Uso Excessivo de Redes Sociais na Autoestima e nos Sintomas de Ansiedade em Adolescentes. Revista REGEO, 16(5), 1-17. DOI: 10.56238/revgeov16n5-228.
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