Psicologia das Massas e Redes Sociais: O Mito Algorítmico

Entenda como a psicologia das massas e as redes sociais funcionam juntas. Descubra por que a manipulação digital não é um mito algorítmico moderno.

Silhuetas humanas conectadas por redes fluídicas simbolizando a psicologia das massas nas redes sociais

O escândalo da Cambridge Analytica entregou ao mundo uma narrativa pronta: a política global havia sido hackeada por uma inteligência artificial quase onipotente, capaz de mapear a mente de milhões de eleitores e determinar decisões democráticas à distância.

A narrativa é assustadora. E foi, em grande medida, uma estratégia de marketing da própria empresa para inflar seu valor no mercado de consultoria eleitoral.

Numa investigação publicada na Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea, o pesquisador Cristian Arão desmonta o mito da onipotência algorítmica e propõe uma tese menos tecnológica e substancialmente mais desconfortável: a manipulação política contemporânea não inventou nenhum mecanismo psíquico novo. O que ocorreu foi a transposição e aceleração de dinâmicas históricas de controle social para ambientes virtuais.

Se a relação entre a psicologia das massas redes sociais parece mais devastadora na era digital, não é porque as máquinas desenvolveram superpoderes. É porque o ambiente de rede se tornou o veículo de ressonância perfeito para a regressão psíquica coletiva — um processo cujas bases teóricas Sigmund Freud mapeou um século antes da criação do primeiro feed de notícias.


Três Campos Teóricos Cruzados

Para construir esse diagnóstico, a investigação articulou a análise empírica dos dados da Cambridge Analytica com a teoria crítica de Theodor Adorno, a psicanálise clássica de Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921) e a história da propaganda moderna sistematizada por Edward Bernays na década de 1920.

O pilar empírico dessa desconstrução apoia-se no trabalho do matemático David Sumpter. Em sua obra Dominados pelos Números, Sumpter reproduziu os experimentos de classificação de personalidade pelo modelo Big Five (OCEAN) utilizados pelo pesquisador Aleksandr Kogan e aplicados pela Cambridge Analytica.

Os achados de Sumpter revelam que a capacidade preditiva do algoritmo era modesta. O sistema conseguia inferir preferências partidárias quando o usuário já consumia e curtia ícones culturais ou políticos correlacionados. Entretanto, a pretensão de prever com precisão traços de personalidade profundos — como neuroticismo ou estabilidade emocional — e usá-los para alterar drasticamente a conduta eleitoral revelou-se estatisticamente frágil e inflacionada.

Não há uma inteligência artificial autônoma governando a psique coletiva. O que existe é o fetichismo dos números — combinado à exploração sistemática de vulnerabilidades psíquicas ancestrais.


Os Três Pilares da Manipulação Digital

A articulação conceitual proposta pelo estudo revela que o impacto da psicologia das massas redes sociais assenta sobre três dinâmicas centrais:

1. Hipostasiação do Algoritmo

A filosofia define hipostasiação como a tendência de atribuir realidade substancial e autonomia a abstrações ou processos. No ecossistema digital, isso se manifesta na ideia de que os algoritmos de recomendação possuem vontade própria ou raciocínio estratégico.

Sistemas de microtargeting não operam com presciência divina. Dependem de intervenção humana contínua — os chamados “alquimistas de dados” — e funcionam por amostragem estatística de tentativa e erro. Eles não moldam a psique humana a partir do zero; apenas amplificam sentimentos e divergências que já pulsavam na cultura.

2. Regressão à Horda Primordial

A psicanálise freudiana explica a razão pela qual os ambientes virtuais convertem-se tão rapidamente em cenários de hostilidade e polarização. Dentro de uma massa psicológica — seja uma multidão nas ruas ou um grupo de mensagens —, o indivíduo experimenta uma diminuição do senso de responsabilidade moral e da capacidade crítica individual.

Protegido pelo anonimato da tela e legitimado pelo pertencimento ao grupo, o sujeito permite que impulsos hostis e afetos recalcados emerjam sem a censura habitual. Não se trata do surgimento de conteúdos mentais inéditos, mas da queda das barreiras morais que continham a agressividade.

3. A Mineração do Ressentimento Subcultural

Ao examinar as estratégias eleitorais modernas, o estudo expõe como fóruns de subculturas digitais — como comunidades de jogos eletrônicos e imageboards — foram mapeados para transformar a frustração e o isolamento de jovens em ativismo político radical.

A liderança autoritária que emerge nesse cenário opera como um espelho de duas faces. Conforme analisado por Adorno, a figura pública projeta-se simultaneamente como um líder implacável e como alguém comum. Essa dualidade permite ao seguidor satisfazer dois desejos inconscientes opostos: a necessidade de submeter-se a uma autoridade forte e a fantasia de sentir-se poderoso por associação.


O Arco Narrativo: Da Frustração Individual à Polarização

A passagem do mal-estar individual para o contágio afetivo de grupo obedece a um arco estruturado em cinco etapas recorrentes:

  1. Sentimento de Isolamento e Impotência: O indivíduo vivencia um desalinhamento entre a realidade cotidiana e as expectativas ideais veiculadas na cultura digital, gerando frustração difusa.
  2. Ingresso na Comunidade Virtual: Redes e grupos de mensagem conectam ressentimentos isolados, oferecendo em troca uma sensação imediata de identidade e acolhimento comunitário.
  3. Erosão do Julgamento Crítico: A validação contínua entre pares enfraquece a dúvida reflexiva e consolida visões de mundo impermeáveis a evidências contrárias.
  4. Engenharia da Indignação: Conteúdos falsos ou hiperbolizados circulam não por sua verossimilhança factual, mas por despertarem espanto e raiva — emoções que exigem reação rápida e paralisam a reflexão lógica.
  5. Adesão à Liderança Protetora: A massa entrega sua autonomia a discursos que oferecem explicações simplificadas e identificam um inimigo comum para o depósito da hostilidade.

A sustentação desse ciclo dentro de câmaras de eco virtuais reforça como a arquitetura das plataformas acelera o fechamento cognitivo e diminui a capacidade de escuta.


Aplicação e Reflexão no Cotidiano

Ao observar o próprio comportamento durante a navegação diária, é possível identificar as marcas sutis desse processo em ação:

  • Diante de uma publicação que provoca indignação imediata, o impulso primário é checar a procedência dos fatos ou compartilhá-la rapidamente para reforçar o alinhamento com o próprio grupo?
  • A sensação de segurança cognitiva obtida dentro de uma comunidade fechada decorre de reflexão autônoma ou da concordância silenciosa com uma voz coletiva?
  • No consumo diário de debates públicos, busca-se a compreensão de argumentos opostos ou o alívio emocional de ver a raiva do outro confirmar as próprias certezas?

Fortalecer a maturidade emocional e exercitar os mecanismos de autocontrole e reflexão tornam-se, assim, elementos fundamentais para preservar a autonomia intelectual diante das pressões de grupo.


Limitações do Estudo e Questões em Aberto

Embora a análise delimite com clareza a persistência dos mecanismos psicanalíticos no ambiente digital, ela deixa em aberto desafios metodológicos importantes.

Determinar empiricamente quantos usuários alteram efetivamente sua decisão política devido a conteúdos manipulados — em comparação àqueles que utilizam as redes apenas para confirmar convicções prévias — permanece uma questão complexa para as ciências sociais contemporâneas.

Além disso, a emergência de modelos generativos avançados e mídias sintéticas introduz novas variáveis. A capacidade de produzir conteúdos automatizados em escala renova a discussão sobre se novas ferramentas tecnológicas poderão, no futuro, superar as limitações estatísticas observadas nos algoritmos de décadas passadas.


O Resgate da Autonomia Intelectual

Atribuir exclusivamente aos algoritmos a responsabilidade pela polarização social é um atalho cômodo. Essa interpretação transfere para a tecnologia um conflito cuja raiz é profundamente humana e cultural.

As redes digitais não inventaram a intolerância nem o desejo de submissão; elas forneceram uma infraestrutura de alta velocidade para vetores psíquicos que acompanham a vida em sociedade há séculos.

Compreender o papel da psicologia das massas redes sociais exige reconhecer que a máquina não possui poder mágico sobre a mente. A questão central não é se somos manipulados por robôs invisíveis, mas o quanto das nossas convicções resulta de reflexão individual consciente e o quanto reflete apenas o eco da massa à qual decidimos pertencer.


Referência principal: Arão, C. (2021). As Redes Sociais e a Psicologia das Massas: A Internet como Terreno e Veículo do Ódio e do Medo. Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea, 8(3), pp. 181-206. https://doi.org/10.26512/rfmc.v8i3.34292

Se este tema ressoa com algo que você vive ou observa nas pessoas ao seu redor, neste espaço há outros artigos que exploram os mecanismos psicológicos por trás do uso das redes. Explore, questione, e compartilhe com quem precisa ler.

Infográfico resumindo a psicologia das massas nas redes sociais e os limites do algoritmo

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Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

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