Vício em Redes Sociais: O Descompasso da Percepção

Entenda o paradoxo do vício em redes sociais: por que a sua autopercepção de uso nocivo pode não bater com os critérios científicos. Leia mais!

Ilustração fotográfica realista em tom azulado de um jovem olhando fixamente para a tela brilhante de um celular em um quarto escuro, transmitindo uma sensação de isolamento e introspecção

De cada dez pessoas que se consideram viciadas em redes sociais, sete não preenchem os critérios clínicos de dependência.

O número vem de um estudo finlandês e desloca uma conversa que costuma se apoiar em autodiagnóstico. A culpa pelo tempo de tela virou experiência quase universal — mas culpa e vício em redes sociais não são a mesma coisa, e confundir os dois produz sofrimento sem tratar o que precisa de tratamento.


Como a Pesquisa Foi Montada

Uma equipe da Universidade de Oulu e do Instituto Finlandês para a Saúde e Bem-Estar, sob liderança de Krista Hylkilä, Niko Männikkö e Sari Castrén, coletou dados de 381 jovens adultos entre 18 e 35 anos no outono de 2020.

O recrutamento se deu por anúncios em periódicos nacionais e mídias sociais. Os participantes responderam a uma bateria psicométrica validada: Bergen Social Media Addiction Scale para sintomas aditivos, Social Media Engagement Questionnaire para envolvimento cotidiano e Beck Depression Inventory curto para sintomas depressivos.

O diferencial estava na pergunta acrescentada ao final — se o próprio participante considerava seu comportamento digital problemático nos doze meses anteriores. Esse dado subjetivo foi então confrontado com os escores clínicos.


O Paradoxo do Autodiagnóstico

Culpa não é diagnóstico

Quase um quarto da amostra — 24,1% — declarou acreditar que seu uso era problemático.

Desse grupo autodeclarado, apenas 32,3% preencheram os critérios formais da escala aditiva.

A maioria estava vivenciando culpa ou uso disfuncional leve, sem quadro clínico. E o estudo capturou também o erro na direção oposta: 2,5% dos que declaravam não ter nenhum problema pontuaram na faixa de risco — negação ou simples falta de consciência.

O cronômetro pesa quase nada

Confirmando resultados anteriores, o tempo total diário mostrou-se indicador fraquíssimo. Na regressão linear multivariada, a associação entre duração bruta de uso e uso problemático foi praticamente nula.

Horas conectado, isoladamente, não determinam desenvolvimento de transtorno aditivo.

O que de fato prevê

O principal preditor foi o FoMO — o desejo ansioso de permanecer conectado para não perder experiência alheia registrou a associação mais robusta.

Em segundo lugar veio o engajamento geral, seguido de perto pelos sintomas depressivos.

Dois terços das pessoas que se acreditam viciadas experimentam culpa subjetiva ou disfunção leve, sem preencher critérios de dependência. O motor real do adoecimento não é a duração do uso, e sim a dinâmica do FoMO e da evitação experiencial.


Evitação Experiencial

O modelo I-PACE descreve o que acontece. Indivíduos propensos ao uso problemático recorrem às redes como câmara de descompressão emocional — não por prazer hedônico, mas para regular estados negativos como depressão, tédio e ansiedade social.

O contexto da coleta reforça o ponto. Durante a pandemia, o isolamento físico funcionou como estressor crônico, e o aumento de uso motivado por esse cenário correlacionou-se fortemente com pontuações mais altas de uso problemático. As redes assumiram o papel de ferramenta de enfrentamento disponível.

O mecanismo é de reforço negativo. Entrar no feed para escapar de um sentimento desagradável produz alívio momentâneo, e o alívio ensina o cérebro a repetir o comportamento sempre que o desconforto reaparecer.

Não é vício químico. É estratégia de fuga que sequestra foco e corrói resiliência emocional offline.

O padrão dialoga com o que a análise de perfis de uso e depressão já indicava: intensidade bruta não equivale a disfunção. E explica por que restrições mecânicas aplicadas sem entender os motivadores costumam ser inócuas, como mostram os estudos sobre detox digital quantitativo.


Culpa ou Sintoma

Quantas vezes, nas últimas semanas, a tela foi desbloqueada não por necessidade prática, mas para preencher o silêncio de um minuto no elevador?

E quantas vezes a culpa por navegar sem rumo estragou um momento que era, de fato, apenas descanso?

Essa autocrítica pode indicar que a pessoa valoriza a própria atenção. Pode também indicar cobrança excessiva produzindo sofrimento desnecessário — e o estudo sugere que o segundo caso é mais comum que o primeiro.

Saúde digital não exige isolamento nem culpa a cada aplicativo aberto. Exige observar que emoção guia o dedo até o aparelho, e treinar tolerância ao tédio sem recorrer à distração imediata.


Pontos Cegos

O delineamento transversal impede estabelecer direção causal. Não se sabe se sintomas depressivos e FoMO elevado desencadeiam o uso problemático, ou se a dependência é que catalisa o sofrimento.

A dependência exclusiva de escalas de autorrelato também pode distorcer a estimativa de gravidade em qualquer direção.

Pesquisas longitudinais com dados coletados diretamente dos sistemas operacionais dos aparelhos serão necessárias para mapear as transições comportamentais ao longo do tempo.


Alívio e Advertência

Os achados trazem alívio e advertência na mesma medida.

O alívio: boa parte da angústia associada ao tempo de tela vem de autocrítica sobre produtividade, não de patologia instalada.

A advertência: o risco real não está na quantidade de minutos, e sim na qualidade da presença mental. Quando as redes se tornam a única saída disponível para frustrações reais, a tecnologia deixa de conectar e passa a obstruir.

Na próxima vez que vier o impulso de checar o celular, experimente respirar e observar a inquietação por trinta segundos. O que está sendo evitado quando a tela acende?


Referência principal: Hylkilä, K., Männikkö, N., Castrén, S., Mustonen, T., Peltonen, A., Konttila, J., Männistö, M., & Kääriäinen, M. (2023). Association between psychosocial well-being and problematic social media use among Finnish young adults: A cross-sectional study. Telematics and Informatics, 81, 101996. DOI: 10.1016/j.tele.2023.101996


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Infográfico em formato 16:9 ilustrando a contradição entre a percepção subjetiva de vício em redes sociais e o diagnóstico clínico real por meio da escala BSMAS, com as diretrizes finlandesas de uso saudável

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www.psicologiadasredes.com.br

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

Artigos: 95

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