Perfis de Uso de Redes Sociais e Depressão em Jovens

Entenda os 5 perfis de uso de redes sociais em adolescentes e como a clareza de autoconceito medeia a depressão. Leia a análise científica.

Múltiplas camadas translúcidas de um rosto de adolescente expressando diferentes emoções sobrepostas a interfaces de redes sociais e notificações.

Três horas por dia contra uma hora e meia.

A adolescente que passa mais tempo conectada publica desenhos, troca mensagens, responde comentários. Dorme bem, vai bem na escola, relata satisfação com a rotina.

A que passa metade do tempo navega em silêncio pelos feeds alheios, quase sempre no escuro do quarto, nas últimas horas da noite. Convive com insatisfação corporal, noites ruins e tristeza persistente.

O cronômetro não explica esse resultado invertido. Os perfis de uso de redes sociais explicam.


Uma Abordagem Centrada na Pessoa

Shanyan Lin e Claudio Longobardi, do Departamento de Psicologia da Universidade de Turim, publicaram em 2025 a análise de 986 estudantes do ensino médio, de 13 a 20 anos.

O método escolhido foi Análise de Perfil Latente. Em vez de isolar variáveis como tempo bruto, a técnica agrupa adolescentes pela combinação de cinco marcadores: intensidade diária, uso problemático com características aditivas, engajamento ativo (publicar, mandar mensagem), engajamento passivo (apenas observar) e uso noturno.

A pergunta era como esses grupos se organizam no mundo real, e qual a relação de cada um com sintomas clínicos de depressão.


Cinco Perfis

A modelagem identificou cinco configurações distintas.

Usuários ativos (12,8%). Alta interação ativa, intensidade média, níveis muito baixos de problematicidade e de uso noturno.

Passivos de baixo engajamento (9,8%). Menores índices em quase tudo — intensidade, uso ativo, adicção, uso noturno —, com navegação passiva moderada.

Passivos (25,5%). Consumo silencioso proeminente, problematicidade e uso noturno moderados, interação ativa baixa.

Ativos problemáticos noturnos (36,3%). O maior grupo. Altos escores em intensidade, uso ativo, sintomas aditivos e uso na cama, com navegação passiva baixa.

Altamente problemáticos noturnos (15,6%). Mesmo padrão do anterior, com escores extremos em todos os indicadores aditivos.

Frequência não é dependência

O achado que mais desmonta o senso comum está na comparação entre o primeiro e o terceiro perfil.

Os usuários ativos apresentam intensidade de uso muito maior que os passivos. E níveis de uso problemático significativamente menores.

Intensidade e dependência, portanto, são dimensões independentes — o que dialoga diretamente com os limites do detox digital, onde a restrição puramente temporal falhou em melhorar o bem-estar.

A conclusão

O perfil qualitativo — sobretudo consumo passivo e navegação noturna na cama — prevê sintomas depressivos de forma robusta. A intensidade de tempo bruto não apresenta correlação direta com depressão.


Autoestima e Clareza

O estudo não parou na descrição dos perfis. Mapeou como eles alcançam a saúde mental, e o caminho passa por duas estruturas do autoconceito: autoestima e clareza de autoconceito.

A distinção entre as duas é importante. Autoestima é valência — o quanto alguém gosta de si. Clareza de autoconceito é estrutura — quão estáveis, certas e consistentes são as crenças que a pessoa tem sobre si mesma.

A analogia que os autores sugerem funciona bem: autoestima é a decoração da casa; clareza de autoconceito é a fundação. Fundação abalada produz rachadura na parede independentemente da qualidade da pintura.

Nas redes opera a hipótese da fragmentação do autoconceito. Para agradar audiências diferentes e obter validação contínua, o adolescente performa versões distintas de si. Essa performance instável, somada ao ciclo de comparação ascendente, corrói a clareza.

Segundo o modelo cognitivo de Beck, é justamente a perda de estabilidade interna somada à fragilização da autoestima que constitui a vulnerabilidade central para sintomas depressivos.

O desgaste é mais intenso quando o suporte social offline foi substituído pelo refúgio digital e pela compensação online.


Em Que Perfil Você Cai

Você já mudou de forma acentuada o jeito de agir ou de opinar conforme o aplicativo aberto, a ponto de estranhar quem é fora das telas?

Quando as horas passam em rolagem silenciosa, ou quando a rede é acessada na cama no escuro — o que acontece com a sensação de valor próprio? Ela oscila conforme as interações das últimas vinte e quatro horas?

Fragmentação identitária é o sinal de que a consistência do autoconceito está sendo corroída. Quando a estabilidade das crenças internas passa a depender do fluxo de dados de uma plataforma, a fundação inteira fica instável.


Lacunas

O estudo é transversal. Fotografia estática, sem direção causal definida. A bidirecionalidade é altamente provável: adolescentes com baixa clareza de autoconceito ou sintomas depressivos prévios podem recorrer ao uso passivo e noturno como tentativa falha de regulação emocional.

Há também uma lacuna de especificidade. A análise trabalhou com plataformas em geral, sem separar arquiteturas — e elas diferem bastante. Redes textuais e conflitivas afetam mais o sono, enquanto as visuais atingem mais diretamente a autoimagem e a insatisfação corporal.


Quem É Você Quando a Tela Apaga

O trabalho de Lin e Longobardi substitui a contagem de minutos pela avaliação da qualidade do engajamento — e essa troca muda o que se pode recomendar a pais, escolas e clínicos.

Saúde psíquica na era das redes não depende de isolamento das telas. Depende de hábitos que preservem a integridade de quem se é. A tecnologia serve como ferramenta de conexão alinhada à autonomia, ou funciona como espelho instável que fragmenta identidade.

A pergunta que sobra ao desligar o aparelho não é sobre tempo de uso. É: quem é você quando a tela se apaga?


Referência principal: Lin, S., & Longobardi, C. (2025). Adolescent Social Media Use and Depression: A Person-Centered Approach. Child Psychiatry & Human Development. https://doi.org/10.1007/s10578-025-01819-1


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Infográfico esquematizando a mediação da autoestima e da clareza de autoconceito no impacto dos 5 perfis latentes de redes sociais sobre a depressão em adolescentes.

Gostou da Visão? Aprofunde-se no tema acessando o Blog Psicologia das Redes
www.psicologiadasredes.com.br

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

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