Perfis de Uso de Redes Sociais e Depressão em Jovens

Entenda os 5 perfis de uso de redes sociais em adolescentes e como a clareza de autoconceito medeia a depressão. Leia a análise científica.

Múltiplas camadas translúcidas de um rosto de adolescente expressando diferentes emoções sobrepostas a interfaces de redes sociais e notificações.

Considere a rotina de duas jovens. Júlia passa cerca de três horas por dia conectada ao Instagram e ao TikTok. Ela posta registros de seus desenhos, envia mensagens ativas para seus amigos e responde a comentários com frequência. Apesar da alta intensidade do tempo de tela, Júlia dorme bem, mantém um desempenho escolar consistente e apresenta sentimentos de satisfação com sua rotina.

Do outro lado, Clara passa menos tempo conectada, acumulando cerca de uma hora e meia diária de uso. No entanto, ela passa a maior parte desse período navegando em silêncio absoluto pelos feeds alheios, observando fotos perfeitamente editadas e vidas idealizadas. Clara faz isso principalmente no escuro de seu quarto, nas últimas horas da noite. Embora passe metade do tempo que Júlia passa online, Clara lida com uma insatisfação corporal crônica, noites mal dormidas e sintomas persistentes de tristeza.

Como explicar que a jovem com maior tempo de tela apresente um bem-estar psicológico superior àquela que passa menos tempo conectada? Esse contraste ilustra o limite das avaliações que tentam medir os impactos da tecnologia baseando-se apenas na quantidade de minutos no cronômetro. A forma como nos engajamos com as telas é muito mais determinante para a saúde mental do que a mera exposição física aos dispositivos digitais.


O Que a Ciência Descobriu

Para investigar essa heterogeneidade de comportamentos, os pesquisadores Shanyan Lin e Claudio Longobardi, do Departamento de Psicologia da Universidade de Turim, na Itália, publicaram um estudo em 2025. Eles analisaram os hábitos de 986 estudantes do ensino médio (de 13 a 20 anos) por meio de uma abordagem estatística inovadora conhecida como Análise de Perfil Latente (LPA).

Em vez de isolar variáveis comuns — como tempo bruto de tela —, a pesquisa adotou uma abordagem centrada na pessoa. O método permitiu agrupar os adolescentes com base na combinação de cinco marcadores de comportamento online: a intensidade do uso diário, o uso problemático (com características aditivas), o engajamento ativo (publicar e enviar mensagens), o engajamento passivo (apenas observar feeds) e o uso específico durante a noite.

O objetivo do estudo foi mapear de forma realista como os diferentes grupos de usuários se estruturam no mundo real e qual a relação direta de cada perfil com sintomas clínicos de depressão.


Os Resultados do Estudo

Os 5 Perfis de Comportamento Digital

A partir das respostas dos adolescentes italianos, a modelagem estatística identificou a existência de cinco perfis distintos na amostra:
1. Active users (Usuários ativos — 12,8%): Apresentaram alta taxa de interação ativa, intensidade média de tela e níveis muito baixos de problematicidade e uso noturno.
2. Low-engaged passive users (Usuários passivos de baixo engajamento — 9,8%): Exibiram os menores índices de intensidade, uso ativo, adicção e uso noturno, embora mantivessem uma navegação passiva moderada.
3. Passive users (Usuários passivos — 25,5%): Caracterizados por um consumo silencioso proeminente, com níveis moderados de problematicidade e uso noturno, e baixa interação ativa.
4. Problematic active users at night (Usuários ativos problemáticos noturnos — 36,3%): Mostraram altos escores em intensidade, uso ativo, sintomas de adicção e uso na cama durante a noite, com baixa navegação passiva.
5. Highly problematic active users at night (Usuários ativos altamente problemáticos noturnos — 15,6%): Apresentaram o mesmo padrão do perfil anterior, porém com escores extremos em todos os indicadores aditivos e noturnos.

Frequência não é Vício

Um dos achados mais importantes da pesquisa foi a dissociação entre tempo de tela e dependência psicológica. O grupo dos Active users (Perfil 1) apresentou uma intensidade de uso muito maior do que os Passive users (Perfil 3). No entanto, o nível de uso problemático e dependência das redes foi significativamente menor nos usuários ativos. Isso prova que a intensidade geral do uso e a dependência aditiva são dimensões totalmente independentes. Em nossa análise anterior sobre os limites do detox digital, vimos como a restrição puramente temporal frequentemente falha em reestabelecer o bem-estar dos usuários.

O Achado Mais Importante

O perfil comportamental qualitativo do adolescente — especialmente o consumo passivo de conteúdo e a navegação noturna na cama — é um preditor robusto de sintomas depressivos, enquanto a intensidade de tempo bruto gasto nas plataformas não apresenta correlação estatística direta com a depressão.


O Mecanismo por Trás dos Dados

A pesquisa de Lin e Longobardi foi além de apenas identificar os perfis; ela mapeou o mecanismo psíquico que conecta esses comportamentos à depressão. Os autores descobriram que os perfis de uso desfavoráveis (Perfis 3, 4 e 5) afetam a saúde mental ao danificar duas estruturas do autoconceito: a Autoestima e a Clareza de Autoconceito.

Enquanto a autoestima representa a valência do valor próprio (o quanto o indivíduo gosta de si mesmo), a clareza de autoconceito representa o aspecto estrutural da identidade: a estabilidade, a certeza e a consistência das crenças sobre si.

Para explicar esse mecanismo, pense em uma analogia simples: a autoestima é como a decoração de uma casa (o quão bonita e agradável ela parece), enquanto a clareza de autoconceito é a estabilidade de sua fundação estrutural. Se a estrutura física está abalada, rachaduras surgirão nas paredes, independentemente de quão bonita seja a pintura externa.

Nas redes sociais, o adolescente é exposto à Hipótese da Fragmentação do Autoconceito. Para agradar diferentes audiências online e obter a validação contínua expressa em curtidas e comentários, o jovem performa “eus” fragmentados e curados. Essa performance cronicamente instável, alimentada por um ciclo de comparação social ascendente, destrói a clareza de si mesmo. De acordo com a teoria de Beck, a perda da estabilidade interna e a fragilização da autoestima atuam como as vulnerabilidades cognitivas centrais que culminam em sintomas clínicos de depressão. Esse desgaste de identidade é especialmente proeminente quando o jovem substitui o suporte social offline pelo refúgio digital e pela compensação online.


A Ponte para o Leitor

Você já se pegou alterando drasticamente a sua forma de agir ou opinar dependendo do aplicativo que abre ou do grupo em que interage, ao ponto de se perguntar quem você realmente é fora das telas?

Quando você passa horas rolando feeds de forma silenciosa ou acessando redes na cama no escuro, o que acontece com a sua mente? Seus sentimentos de autovalor e a certeza sobre suas próprias qualidades oscilam conforme as interações e curtidas que você recebeu nas últimas vinte e quatro horas?

A sensação de fragmentação identitária é um sinal de que as dinâmicas digitais podem estar erodindo a consistência do seu autoconceito. Quando a estabilidade das nossas crenças internas passa a depender do fluxo volátil de dados de uma plataforma digital, a fundação da nossa saúde mental torna-se frágil e propensa à instabilidade.


O Que a Ciência Ainda Não Sabe

Apesar do rigor metodológico da análise de perfil latente do estudo de Turim, existem lacunas importantes que exigem atenção. Por se tratar de um estudo transversal, ele fornece uma fotografia estática do comportamento, impedindo a determinação exata da direção causal. É altamente provável que exista uma bidirecionalidade: adolescentes com baixa clareza de autoconceito ou sintomas depressivos prévios recorram ao uso passivo e noturno como mecanismos falhos de regulação emocional.

Ademais, o estudo focou em plataformas gerais, sem mapear o papel de canais específicos. Sabemos que diferentes redes possuem arquiteturas aditivas próprias; por exemplo, analisamos anteriormente como plataformas textuais e de conflito como o Twitter/X roubam o sono dos jovens, enquanto o Instagram e outras redes baseadas no apelo visual impactam mais diretamente a autoimagem e a insatisfação corporal. Futuros estudos longitudinais serão fundamentais para desarticular essas especificidades.


Encerramento

Os achados de Lin e Longobardi reposicionam a discussão sobre tecnologia e bem-estar dos jovens. O estudo substitui a contagem vazia de minutos online pela necessidade urgente de avaliar a qualidade do engajamento digital dos adolescentes.

A saúde psíquica na era das redes não depende de nos isolarmos das telas, mas de construirmos hábitos que preservem a clareza e a integridade de quem somos. A tecnologia deve atuar como uma ferramenta de conexão alinhada à nossa autonomia, e não como um espelho instável que fragmenta a nossa identidade.

No fim, a questão central que cada um deve carregar ao desligar os aparelhos não reside no tempo de uso registrado. A verdadeira reflexão é: quem é você quando a tela finalmente se apaga?


Referência principal: Lin, S., & Longobardi, C. (2025). Adolescent Social Media Use and Depression: A Person-Centered Approach. Child Psychiatry & Human Development. https://doi.org/10.1007/s10578-025-01819-1


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Infográfico esquematizando a mediação da autoestima e da clareza de autoconceito no impacto dos 5 perfis latentes de redes sociais sobre a depressão em adolescentes.

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