A Engrenagem do Vício: Como a Ansiedade Alimenta o FoMO nas Redes

O Uso Problemático de Redes Sociais cresce assustadoramente no mundo todo. Descubra o estudo que revela o papel central do FoMO entre os jovens.

Alt descritivo sem marcas ou pessoas reais

Um quarto dos jovens marroquinos pesquisados preenche os critérios de uso problemático de redes sociais.

O número, sozinho, seria mais um dado de prevalência. O que torna o estudo relevante é a peça que ele encaixa no meio do caminho: a modelagem estatística mostrou que a relação entre fomo e redes sociais não é lateral. O medo de ficar de fora é a engrenagem que converte sofrimento psíquico em compulsão digital.


Fora do Eixo Ocidental

A literatura sobre uso problemático de mídias sociais se concentrou por muito tempo em países ocidentais. Em 2026, Samira Abbouyi e colegas da Universidade Sidi Mohamed Ben Abdellah publicaram na Scientific Reports um estudo com mais de 2.200 adolescentes e jovens adultos marroquinos.

A prevalência encontrada foi de 25,5%. E o sofrimento psicológico — depressão e estresse — caminhava junto com a compulsão online. A pergunta que a modelagem precisava responder era como, exatamente, um se converte no outro.

O FoMO não é apenas sintoma do vício. É o mediador central, a engrenagem que conecta o sofrimento emocional à compulsão digital.


O Ciclo

Quem está mais exposto

O uso problemático não se distribui de forma homogênea. Mulheres, adolescentes mais velhos e jovens de área urbana apresentaram taxas significativamente mais altas.

Os fatores econômicos pesaram de forma expressiva. Adolescentes com pais analfabetos ou que relataram situação econômica familiar fragilizada chegaram a quase 40% de prevalência. Onde falta suporte estrutural offline, a rede atrai de forma desproporcional.

A dor como combustível

Quanto mais altos os níveis de depressão, ansiedade e estresse, mais provável o uso problemático. Cerca de metade dos jovens com depressão severa também preenchia critérios de dependência de internet.

A relação, porém, não é direta. Ninguém desenvolve uso problemático simplesmente por estar triste. Desenvolve porque tenta compensar a tristeza.

A ponte

Aqui está o achado central. A modelagem estrutural demonstrou que ansiedade e depressão elevam de forma acentuada o nível de FoMO.

Já vulnerável, o adolescente passa a temer exclusão social de maneira intensa. É esse temor que o obriga a engajar exaustivamente com as plataformas — e o engajamento exaustivo é o próprio uso problemático.

O FoMO é o elo que converte dor em comportamento compulsivo.


Reforço Negativo

O mecanismo se apoia em como o cérebro responde ao desconforto. Em quadro depressivo ou ansioso, o sistema de alerta social fica hipersensível. E num ambiente hiperconectado, o outro está sempre tendo uma experiência aparentemente melhor, visível em tempo real.

Nesse estado, checar o celular deixa de ser busca por prazer. Vira busca por alívio — o cérebro tentando confirmar que não foi esquecido nem excluído do grupo.

As plataformas exploram essa falha de autorregulação com precisão. Cada notificação funciona como curativo sobre a ferida do FoMO, e o alívio dura pouco. Em minutos o medo retorna e exige nova checagem. É assim que se instala o ciclo de tolerância e abstinência, até que o uso comprometa a rotina inteira.


Interesse ou Sedação

Na próxima vez que o celular sair do bolso num intervalo qualquer, cabe uma pergunta: o que está sendo procurado? Interesse genuíno por algo específico, ou sedação de uma ansiedade difusa de estar perdendo alguma coisa?

O que o estudo sugere é que apagar aplicativo não resolve. Se o FoMO é o motor, a intervenção precisa alcançar duas frentes: aumentar a tolerância ao desconforto e fortalecer redes de segurança emocional fora da tela.

Um dado do próprio estudo aponta o caminho. Jovens engajados em atividades extracurriculares presenciais apresentaram proteção contra o uso problemático. Presença física reduz a intensidade do medo de ausência digital.


O Que Falta Medir

O desenho é transversal, o que impede afirmar que a depressão precede sempre o FoMO. O modelo aponta nessa direção, mas a via provavelmente é dupla: tristeza gera FoMO, que gera compulsão, que destrói o que restava de relação offline, que produz mais tristeza.

Falta também entender como arquiteturas diferentes disparam gatilhos distintos. O medo de perder uma live é psicologicamente equivalente ao de não ter visto o vídeo viral do dia? Nada na literatura atual responde a isso.


A compulsão não nasce apenas do design engajador. Encontra terreno fértil na vulnerabilidade psíquica de quem chega até ela.

O medo de estar de fora prende a pessoa a um lado de dentro que, examinado de perto, é ilusão de ótica iluminada por pixels. Alguma forma de coragem, na era digital, consiste em aceitar não estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Se este tema ressoa com algo que você vive ou observa nas pessoas ao seu redor, neste espaço há outros artigos que exploram os mecanismos psicológicos por trás do uso das redes. Explore, questione, e compartilhe com quem precisa ler.

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Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

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