Dependência de Internet em Psicólogos: Quem Cuida de Quem Cuida?

Estudo brasileiro revela a dependência de internet em psicólogos e estudantes. Descubra por que quem cuida da saúde mental também é vulnerável.

Profissional de psicologia absorto na tela do smartphone em um consultório iluminado por luz azul digital, retratando a dependência de internet em psicólogos

Fim de uma sessão difícil. O peso emocional ainda no peito, e a mão indo ao celular antes da anotação do prontuário.

Não há nada urgente na tela. O que há é uma interrupção — dez minutos depois, a rolagem continua, e vem uma sensação familiar, a mesma que os pacientes descrevem.

A dependência de internet em psicólogos parece contradição. Profissionais treinados para reconhecer padrão disfuncional deveriam estar protegidos por essa competência. Os dados dizem outra coisa — e, mais interessante, dizem que o mecanismo que os afeta não é o mesmo que afeta seus alunos.


O Que o Estudo Revelou

Uma equipe liderada por André Luiz Monezi Andrade, da PUC-Campinas, com pesquisadores da UNIFESP, PUCRS, University of York e UFSC, conduziu o primeiro estudo brasileiro a comparar os dois grupos no mesmo desenho amostral.

Seis mil duzentos e setenta e cinco participantes — 1.916 estudantes e 4.359 psicólogos — de todas as regiões do país. Cada um respondeu ao Internet Addiction Test, à escala DASS-21 de depressão, ansiedade e estresse, e a um questionário sobre uso de smartphone.

Seis meses de coleta, com aprovação do Comitê de Ética da UNIFESP.

9,3% dos estudantes e 4,0% dos psicólogos apresentaram dependência de internet. E os mecanismos que a alimentam diferem entre os dois grupos.


Os Números

Dez vezes mais depressão

Entre psicólogos classificados como dependentes, a frequência de sintomas graves de depressão foi dez vezes maior que nos colegas sem risco. Para ansiedade e estresse, sete vezes em ambos os casos.

O grupo também relatou satisfação com a vida significativamente menor.

Entre estudantes o padrão se repetiu com intensidade um pouco menor: sintomas graves de depressão, ansiedade e estresse foram sete, seis e cinco vezes mais frequentes no grupo dependente.

Quase sete horas

Estudantes com dependência passavam em média 6,9 horas diárias no smartphone — quase o dobro dos colegas sem risco, que ficavam em 3,7 horas.

Entre psicólogos dependentes o tempo era cerca de uma hora menor, o que a demanda do atendimento clínico explica.

Mais de 70% dos dependentes, nos dois grupos, reconheciam que o uso prejudicava as atividades diárias.

Gênero e estado civil

Ser homem mais que dobrou a chance de dependência em ambos os grupos, com razão de chances superior a 2,0. O achado dialoga com parte da literatura internacional, ainda que alguns estudos reportem o oposto.

Ser casado funcionou como fator de proteção — mas apenas entre os psicólogos.

O achado central

Depressão, ansiedade e estresse foram preditores significativos de dependência apenas entre psicólogos, não entre estudantes. O estresse ocupacional de quem cuida da saúde mental alheia parece ser exatamente o que alimenta a busca por refúgio digital.


O Que a Análise de Rede Revela

O modelo de análise de rede — que trata as variáveis como pontos interligados, cada conexão representando influência direta ou indireta — expõe onde os dois grupos divergem.

Em todos os participantes, a depressão foi a única variável emocional diretamente conectada à dependência.

Os caminhos indiretos, porém, diferiram. Entre estudantes, o segundo nodo mais influente era o estresse. Entre psicólogos, a ansiedade.

A diferença sugere que o gatilho muda conforme a fase da carreira. Para o estudante, pesa o estresse acadêmico e social. Para o profissional em exercício, pesa a ansiedade acumulada no contato contínuo com o sofrimento alheio, somada à pressão por resultado e a jornadas longas.

Nos dois casos a internet cumpre a mesma função: compensação por reforço negativo. O aparelho não é acessado por ser prazeroso, e sim porque alivia temporariamente algo que incomoda.

O dado mais inesperado da rede não é emocional. O nodo com maior influência esperada sobre a dependência, nos dois grupos, foi “ter filhos”.

A parentalidade parece operar como proteção estrutural — exige presença, redistribui atenção, reduz o tempo disponível para uso compensatório. Proteção por indisponibilidade, não por virtude.


Quem Cuida do Cuidador

Você já abriu o celular logo depois de um momento emocionalmente pesado no trabalho — não para resolver nada, mas para sair de um sentimento?

Já reconheceu que o próprio uso é prejudicial sem conseguir mudá-lo?

Esse segundo ponto merece atenção. A percepção de que o uso faz mal foi o preditor mais forte de dependência nos dois grupos, com razão de chances entre 2,76 e 3,02.

Ou seja: a autoconsciência existe. E não basta.

Para quem trabalha com saúde mental fica uma pergunta específica. Quando foi a última vez que o próprio padrão de uso digital recebeu a mesma seriedade de análise que o dos pacientes? A formação ensina a identificar o vício nos outros e raramente inclui o cuidador na conta.


Limites do Estudo

O desenho é transversal e não permite estabelecer causa. Não se sabe se a depressão leva à dependência, se ocorre o inverso, ou se ambas se alimentam.

O estudo também não usou instrumento específico para dependência de smartphone, o que significa que parte do que foi medido pode se sobrepor à dependência do dispositivo em si.

O que ele tem de inédito importa: é a maior amostra brasileira sobre o tema, com representação nacional, e a primeira comparação direta entre quem estuda e quem exerce a psicologia.


A Pergunta Que Fica

O que mais incomoda nesses números não são os percentuais. É a implicação.

As pessoas designadas para cuidar da saúde mental coletiva estão presas, em silêncio, a padrões que elas próprias identificam como prejudiciais — e permanecem neles.

A pergunta não é se psicólogos são dependentes de internet. É o que se faz com a exaustão quando não há ninguém do outro lado do consultório para escutar.


Referência principal: Andrade, A. L. M., Scatena, A., Bedendo, A., Machado, W. L., Oliveira, W. A., Lopes, F. M., & De Micheli, D. (2023). Uso excessivo de internet e smartphone e problemas emocionais em estudantes de psicologia e psicólogos. Estudos de Psicologia (Campinas), 40, e210010. DOI: 10.1590/1982-0275202340e210010.


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Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

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