Doomscrolling: o hábito nocivo de consumir notícias ruins
O doomscrolling agrava a ansiedade e gera desesperança. Conheça as descobertas da revisão da UFSM sobre likes, comparação social e saúde mental digital.

A intenção era dar uma última olhada no feed antes de dormir. Duas horas depois, o saldo é catástrofe, pandemia, guerra e crise econômica — nessa ordem ou em qualquer outra.
O hábito tem nome: doomscrolling, a rolagem obsessiva atrás de más notícias.
E ele funciona contra quem o pratica de um jeito bem específico. O fluxo contínuo de conteúdo trágico mantém a produção de hormônios do estresse elevada, o que sustenta o cérebro em estado de alerta justamente na hora em que ele deveria desacelerar.
Resta a pergunta que a psicologia tenta responder: por que a dor alheia prende tanto?
De Onde Vêm os Dados
A psicóloga Gracielle Almeida de Aguiar e o professor André Costa da Silva conduziram uma revisão da literatura sobre o tema, com buscas em repositórios nacionais e internacionais, incluindo a SciELO.
O levantamento reuniu investigações sobre tempo de tela, distúrbios de sono e adoecimento na era digital, combinando estudos clássicos com dados empíricos recentes sobre dependência comportamental.
As conclusões foram organizadas como alerta dirigido a pais, educadores e clínicos:
O uso desregulado de dispositivos móveis estimula a autodepreciação e acelera o adoecimento emocional de jovens e adultos.
O Que o Levantamento Mostra
Doomscrolling e ansiedade
O levantamento posiciona o doomscrolling como catalisador de crise ansiosa.
Na amostra analisada, a dependência digital apareceu correlacionada a 55% dos sintomas de ansiedade clínica apurados. O vício tecnológico respondeu por 52% da prevalência de sintomas depressivos graves entre os participantes.
Os dados de Marino (2021) dimensionam o impacto do uso desmedido. E há um achado prático embutido: manter o celular ligado ao lado da cama agrava insônia e compromete a atenção do dia seguinte.
Comparação social ascendente
As redes operam como vitrines onde se exibem existências editadas.
Vogel (2014) detalhou a dinâmica: ver perfis selecionados e corpos tratados induz sentimento de inferioridade e insatisfação corporal continuada.
O ciclo de autodepreciação que se segue enfraquece a autoestima e produz ansiedade por validação — expressa em curtida. A busca por aprovação virtual deforma a percepção de valor pessoal, e o faz de forma cumulativa.
FoMO e nomofobia
A necessidade de acompanhar postagens e conquistas alheias define o FoMO, e o medo de ficar de fora se traduz em checagem obsessiva ao longo do dia inteiro.
Quem desenvolve nomofobia relata pânico ou irritabilidade severa ao perder sinal de internet.
O aparelho deixa de ser ferramenta e passa a governar a vida emocional. O isolamento virtual substitui contato analógico e enfraquece as defesas afetivas no ambiente escolar.
O Que Mantém o Ciclo
Dois mecanismos sustentam a rolagem.
O primeiro é evolutivo. O viés de negatividade fez o cérebro humano priorizar a detecção de ameaça — atributo útil quando as ameaças eram físicas e locais. As plataformas exploram esse viés atencional entregando conteúdo assustador porque ele retém melhor que qualquer outro.
O segundo é de design. A rolagem infinita eliminou as barreiras naturais de parada que existiam em qualquer mídia anterior. Sem fim de página, sem fim de programa, sem intervalo — não há o momento em que a atenção poderia se reorganizar.
O padrão compulsivo de busca por novidade alimenta a procrastinação com smartphone nos períodos que deveriam ser produtivos, e o cérebro se acostuma a operar com picos de alerta que mantêm o estresse em nível contínuo.
O resultado é mão de obra atencional capturada dentro das celas douradas do trabalho digital — onde o doomscrolling cumpre função clara de retenção. A liberdade de escolha vai sendo suprimida pelo fluxo, e a atenção mercantilizada rende para a plataforma o que custa à saúde de quem a fornece.
O Vício nas Telas
O doomscrolling já ocupou a sua rotina de sono?
Quantas manhãs começaram cansadas por causa de uma madrugada consumindo notícia alarmante?
O hábito de perseguir catástrofe distorce a percepção sobre o estado real do mundo. E há uma justificativa que atrapalha o exame: a de que ler notícia trágica é obrigação de quem quer estar informado.
Informação é necessária. Sobrecarga informacional é outra coisa — ela exaure energia e corrói senso de segurança sem acrescentar compreensão.
Empatia real, aliás, se exerce em ação concreta, offline, na comunidade onde alguém vive. Não em rolagem noturna.
Desativar notificação de portal de notícias à noite é medida modesta com retorno desproporcional.
Ressalvas
O estudo se estruturou como revisão assistemática, sem filtros estatísticos padronizados. Não realiza metanálise de dados primários nem ensaios clínicos controlados de comportamento digital.
Permanece inexplorado como usuários intensos respondem a terapias de dessensibilização atencional.
E faltam cruzamentos de dados comportamentais entre adolescentes de perfis sociais distintos no Brasil — lacuna que impede afirmar causalidade entre telas e adoecimento com a segurança que o debate público costuma supor.
Resgatando o Foco
O consumo compulsivo de tragédia somado à busca por aprovação digital enfraquece a estabilidade atencional. A dependência deteriora sono e produz sintomas de ansiedade crônica e depressão.
O que funciona contra isso é barreira física: desligar as telas à noite, tirar o aparelho do quarto, estabelecer limite antes de precisar dele.
Educadores e terapeutas têm papel na regulação do uso dentro das escolas. Mas a recuperação da autonomia atencional acontece, no fim, na decisão de cada um sobre o que entra na própria cabeça antes de dormir.
A escolha de desligar continua ao alcance da mão que segura o aparelho.
Referência principal: Aguiar, G. A. de; Silva, A. C. da. Ansiedade, depressão e likes: os efeitos ocultos do excesso do uso de redes sociais. Caderno Brasileiro de Atualizações e Pesquisa em Psicologia, 1(1), 01–02, 2025. doi: 10.55703/27644006040206.
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