Mecanismos Afetivos das Adicções de Internet: ACSID

Conheça os mecanismos afetivos das adicções de internet revelados pelo programa ACSID de 11 cientistas alemães. Saiba mais!

Rede neural cerebral iluminada representando mecanismos afetivos das adicções de internet

A urgência que leva alguém a checar notificações e a que leva outra pessoa a gastar compulsivamente numa loja online — são o mesmo circuito ou circuitos diferentes?

A pergunta parece acadêmica. Não é. A resposta determina se o tratamento pode ser um só ou precisa ser específico para cada caso.

Foi para responder isso que se montou o maior programa de pesquisa já dedicado aos mecanismos afetivos das adicções de internet.


O Programa

Onze pesquisadores de múltiplas universidades alemãs, sob liderança do professor Matthias Brand, receberam financiamento da Deutsche Forschungsgemeinschaft para seis anos de investigação.

O programa se chama ACSID — Affective and Cognitive mechanisms of Specific Internet-use Disorders — e foi apresentado na Addiction Biology.

O desenho compara quatro formas de adicção lado a lado, o que raramente acontece: jogos, redes sociais, pornografia e compras online.

As quatro compartilham mecanismos de cue-reactivity e craving, mas diferem na predominância de gratificação sensorial versus compensação emocional.


Comum e Específico

O que é comum

Os quatro tipos apresentam resposta neural semelhante diante de estímulo visual associado ao objeto do vício.

Um ícone de aplicativo basta para disparar craving. A pista não precisa ser o comportamento — precisa apenas apontar para ele.

O que é específico

Cada forma tem um motor emocional predominante, e é aí que os quadros se separam.

Comparação dos Mecanismos por Tipo de Adicção:
- Jogos Online: Gratificação por conquista + Compensação de tédio.
- Redes Sociais: Compensação de solidão + Busca por pertencimento social.
- Pornografia Online: Gratificação sensorial (recompensa visual imediata).
- Compras Online: Compensação emocional + Impulsividade materialista.

Nas redes sociais, o vetor principal é solidão e necessidade de pertencer. Nas compras, impulsividade materialista somada a regulação emocional por aquisição.

A implicação clínica é direta: mesma família de transtorno, alvos terapêuticos distintos.

Os estudos sobre o modelo I-PACE mostram que esses mecanismos se intensificam à medida que o controle inibitório se deteriora.


Da Emoção ao Clique

O modelo por trás do programa descreve uma cascata.

Uma emoção negativa — tédio, solidão, ansiedade — ativa a reatividade a pistas associadas ao objeto. Da reatividade nasce o craving. O comportamento é executado, a tensão emocional cai, e o alívio funciona como reforço.

A repetição crônica dessa sequência enfraquece as funções executivas responsáveis pela inibição.

O ponto de virada acontece quando o que era voluntário passa a ser automático — e o sujeito percebe o gesto depois de tê-lo feito. As pesquisas sobre autocontrole e investimento emocional detalham como isso se manifesta na rotina.


Qual É o Seu Motor

Ao abrir o celular por reflexo, o que está sendo procurado: diversão, ou saída de algum desconforto?

A distinção não é retórica. Ela define a intervenção.

Se o motor é solidão, bloquear a tela não resolve nada — remove o paliativo e deixa a causa intacta. O que endereça o problema é reconexão presencial.

Se o motor é tédio, a solução passa por atividade que ocupe o mesmo espaço com retorno mais lento.

Vale identificar qual emoção específica antecede as sessões mais longas.


Os Dados Que Ainda Virão

Os resultados longitudinais completos ainda estão em coleta. O seguimento de seis anos é o que dirá se os mecanismos identificados em laboratório se replicam na vida cotidiana.

E permanece em aberto a questão mais aplicada: como adaptar intervenção clínica ao motor emocional predominante de cada tipo de adicção.


Raiz Emocional

Cada clique compulsivo tem raiz emocional identificável. Nem todos têm a mesma raiz.

Saber se o próprio uso é movido por busca de prazer ou por fuga de desprazer muda inteiramente a estratégia que faz sentido tentar.

Qual emoção vai ser encarada hoje, em vez de anestesiada?


Referência principal: Brand, M. et al. (2022). Addiction Research Unit: Affective and cognitive mechanisms of specific Internet-use disorders. Addiction Biology, 27(3), e13128. https://doi.org/10.1111/adb.13128.

Se este tema ressoa com algo que você vive ou observa nas pessoas ao seu redor, neste espaço há outros artigos que exploram os mecanismos psicológicos por trás do uso das redes. Explore, questione, e compartilhe com quem precisa ler.

Infográfico comparativo dos mecanismos afetivos das adicções de internet

Gostou da Visão? Aprofunde-se no tema acessando o Blog Psicologia das Redes www.psicologiadasredes.com.br

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

Artigos: 95

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