Por Que Você Continua Usando as Redes Mesmo Sem Gostar? A Ciência da Gratificação e Compensação

Pesquisadores alemães revelam que nas adições digitais o prazer e o alívio do sofrimento coexistem — e que, com o tempo, é o segundo que comanda. Entenda o mecanismo e o que isso significa para você.

Ilustração: O paradoxo da busca por prazer e o alívio do vazio digital

Um comportamento que não dá prazer deveria se extinguir sozinho. É assim que a aprendizagem funciona na versão simples da teoria.

Só que existe o caso do aplicativo aberto por vinte minutos que não produziu diversão, interesse nem descanso — e que será aberto de novo amanhã. E depois de amanhã. E talvez daqui a dez minutos.

A explicação para essa anomalia é o objeto de uma revisão sistemática da Universidade de Duisburg-Essen. “Systematic Review About Gratification and Compensation in Addictive Behaviors” (Wegmann, Knorr, Antons & Brand, 2025) reuniu 26 estudos sobre gratificação e compensação adições digitais e chegou a uma formulação incômoda:

Nas adições digitais, o prazer e o alívio do sofrimento coexistem. E, com o tempo, é o segundo que comanda.


Dois Motores, Não Um

A distinção que abre o trabalho parece trivial e não é.

Gratificação descreve o uso que busca prazer, satisfação, conexão. A curtida que valida, o vídeo que faz rir, a notificação que informa que alguém lembrou de você. Sentir-se bem.

Compensação descreve outra coisa. Não é ir atrás do bom, é escapar do ruim. Usar a rede porque há tédio, ansiedade, solidão ou estresse — sem expectativa de nada maravilhoso, apenas o desejo de não continuar sentindo o que se sente.

O vocabulário técnico chama o primeiro de reforço positivo e o segundo de reforço negativo. Ambos ensinam o cérebro a repetir. Os caminhos, no entanto, são muito diferentes, e é essa diferença que a revisão persegue.


O Que os 26 Estudos Mostraram

A busca inicial varreu mais de 5.500 trabalhos até chegar aos 26 que investigavam os dois mecanismos em adições comportamentais: jogos digitais, apostas, redes sociais, compras compulsivas e uso problemático de internet.

Jogos digitais. Jogar para aliviar estresse ou emoção negativa aparece como fator de risco robusto para o transtorno. A gratificação não some do quadro: a satisfação de necessidades dentro do jogo — competência, pertencimento, autonomia — gera craving, o desejo compulsivo de voltar.

Apostas. O reforço positivo domina na maioria dos estudos, sustentado pela excitação do risco. Barrada e colegas, no entanto, verificaram que na prática os dois reforços se fundem num único fator de modulação afetiva. Aposta-se pela emoção e para não se sentir mal, ao mesmo tempo.

Redes sociais. Aqui está o achado mais direto. O componente wanting — querer compulsivamente — prevê uso problemático com mais força que o liking — gostar de fato. O usuário problemático não permanece na plataforma por amá-la. Permanece porque precisa, mesmo achando a experiência morna.

É evidência direta da Teoria da Sensibilização ao Incentivo, de Berridge e Robinson: o desejo dopaminérgico se descola do prazer real. Quer-se intensamente aquilo que não faz bem.

“Feels good, and less bad”

Um estudo multicêntrico comparou usuários não problemáticos, de risco e patológicos. O grupo patológico apresentava níveis elevados de ambos os mecanismos, não de um só.

Não é apenas o sofrimento que alimenta a adição. É a combinação de buscar prazer e evitar dor, simultaneamente.

Os autores batizaram a trajetória de “feels good, and less bad”. Sente-se bem e um pouco menos mal — e é essa coexistência que torna o abandono progressivamente mais difícil.


A Progressão em Três Tempos

O grupo de Duisburg-Essen desenvolveu o Modelo I-PACE (Interaction of Person-Affect-Cognition-Execution), e ele organiza a evolução do quadro. Uma ressalva publicada em 2025 merece registro: a progressão não é linear.

Início. A gratificação domina. Usar é divertido, conecta, estimula. Reforço positivo puro.

Meio. Os dois mecanismos passam a coexistir. O uso ainda produz prazer, mas já opera como estratégia de coping — válvula de escape para ansiedade, tédio ou solidão.

Avançado. A compensação cresce até assumir o comando. O comportamento vira o que os autores chamam de must-do: deixou de ser escolha. O autocontrole diminui e a meta se inverte — não se busca mais prazer, busca-se ausência de desconforto.

Detalhe importante desse último estágio: o comportamento parece automático, mas não é desprovido de intenção. Os objetivos mudaram, e passam a ser selecionados de forma cada vez mais rápida e menos consciente.


Por Que Ninguém Para

Há uma pergunta no paper que sintetiza o problema clínico inteiro:

“Por que as pessoas persistem em um certo comportamento apesar das consequências negativas?”

A resposta agora tem respaldo empírico. O comportamento serve a dois senhores ao mesmo tempo, e por isso já não precisa ser bom para continuar sendo necessário. Basta que seja menos ruim do que aquilo que está embaixo dele.

Ansiedade. Vazio. Solidão. Insegurança. A rede não resolve nada disso. Adia. E adiamento, para o sistema nervoso, contabiliza como alívio.


Onde Isso Toca Quem Não Tem Diagnóstico

Os mecanismos operam em grau variável em muita gente sem transtorno nenhum.

Você já abriu o celular sem querer nada de específico, só para não ficar um minuto com os próprios pensamentos? Compensação em ação.

Você já ficou irritado ou ansioso ao passar algumas horas sem acesso? Pode indicar que o comportamento passou a servir mais à evitação do sofrimento do que à busca de prazer.

Você já reparou que o tempo online cresce nos dias ruins e encolhe nos bons? A compensação virou padrão preferencial.

A pergunta que a revisão permite formular com precisão nova: o que exatamente a rede está aliviando? E a estratégia está funcionando, ou apenas empurrando para frente?


O Que Falta Saber

Os próprios autores apontam a limitação central. A maior parte dos estudos investiga esses mecanismos como motivos declarados de uso — o que a pessoa diz que a leva ao aplicativo — e não como experiência em tempo real durante o uso.

A distância entre as duas coisas é grande. O que alguém antecipa sentir e o que sente de fato costumam divergir, e não há dados suficientes sobre o que acontece no cérebro e no comportamento enquanto o uso compulsivo ocorre.

A recomendação metodológica é o Ecological Momentary Assessment (EMA): avaliações disparadas pelo próprio celular, capturando a experiência no instante em que ela acontece, somadas a estudos longitudinais que acompanhem a progressão.

Esse é o próximo passo. E há motivo para esperar resultados menos confortáveis que os atuais.


Funcional Para as Coisas Erradas

A conclusão prática da revisão é simples de enunciar e difícil de digerir: o problema não é que as redes sejam ruins. É que elas são funcionais — para as coisas erradas.

Funcionam contra o tédio. Funcionam para amortecer ansiedade. Funcionam para evitar a companhia dos próprios pensamentos. Justamente por isso podem se converter em resposta padrão a qualquer desconforto, ocupando o lugar de estratégias mais sustentáveis de regulação emocional.

A pergunta não é “você é viciado?”. É outra: o que você faz quando se sente mal? Se a resposta automática for abrir o celular, vale investigar o que ficou sem solução.

Referência principal: Wegmann, E., Knorr, A., Antons, S., & Brand, M. (2025). Systematic Review About Gratification and Compensation in Addictive Behaviors: Key Mechanisms Which Deserve More Attention in Addiction Research. Current Addiction Reports, 12:50. DOI: 10.1007/s40429-025-00663-6.

Se este tema ressoa com algo que você vive ou observa nas pessoas ao seu redor, neste espaço há outros artigos que exploram os mecanismos psicológicos por trás do uso problemático das redes — do FoMO à desconexão digital, passando pela ciência do autocontrole. Explore, questione, e compartilhe com quem precisa ler.

Infográfico: O Ciclo da Adição Digital - Gratificação vs Compensação (Modelo I-PACE)

Gostou da Visão? Aprofunde-se no tema acessando o Blog Psicologia das Redes www.psicologiadasredes.com.br

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

Artigos: 95

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