Por Que Você Continua Usando as Redes Mesmo Sem Gostar? A Ciência da Gratificação e Compensação

Existe um momento — quem usa redes sociais com frequência provavelmente já o reconhece — em que você abre o Instagram ou o TikTok e, ao fechar, percebe que não sentiu nada de especial. Não foi divertido. Não foi interessante. E ainda assim você voltará amanhã, e depois de amanhã, e talvez daqui a dez minutos.
Por que isso acontece?
Um grupo de pesquisadores da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, acaba de publicar uma revisão sistemática que lança luz sobre esse paradoxo. O paper — “Systematic Review About Gratification and Compensation in Addictive Behaviors” (Wegmann, Knorr, Antons & Brand, 2025) — analisou 26 estudos e chegou a uma conclusão que é, ao mesmo tempo, cientificamente precisa e psicologicamente perturbadora:
Nas adições digitais, o prazer e o alívio do sofrimento coexistem. E, com o tempo, é o segundo que comanda.
Dois Motores do Comportamento Aditivo
A pesquisa parte de uma distinção aparentemente simples, mas com consequências enormes.
Gratificação é o que acontece quando usamos algo para obter prazer, satisfação, conexão — para sentir-se bem. É o like que valida, o vídeo engraçado que faz rir, a notificação que diz que alguém pensou em você.
Compensação é diferente. Não é buscar o bem. É fugir do mal. É usar as redes quando estamos entediados, ansiosos, solitários ou estressados — não porque esperamos sentir algo maravilhoso, mas porque não queremos sentir o que estamos sentindo agora.
Na linguagem técnica da psicologia, são chamados respectivamente de reforço positivo (buscar recompensa) e reforço negativo (evitar punição/desconforto). Ambos ensinam o cérebro a repetir o comportamento. Mas por caminhos muito diferentes.
O Que a Revisão Sistemática Encontrou
Os pesquisadores vasculharam mais de 5.500 estudos e selecionaram 26 que investigavam especificamente esses dois mecanismos em diferentes tipos de adições comportamentais: jogos digitais, apostas, uso de redes sociais, compras compulsivas e uso problemático de internet em geral.
Os resultados, organizados por categoria:
Jogos Digitais (Gaming Disorder)
Os estudos mostram que jogar para aliviar estresse ou emoções negativas é um fator de risco robusto para o transtorno. Mas — e aqui está o dado importante — a gratificação também está presente: a satisfação de necessidades dentro do jogo (competência, pertencimento, autonomia) gera craving, o desejo compulsivo de jogar novamente.
Apostas (Gambling Disorder)
O reforço positivo — a excitação do risco — é dominante na maioria dos estudos. Mas pesquisadores como Barrada e cols. identificaram que, na prática, reforço positivo e negativo se mesclam em um único fator de “modulação afetiva”. O jogo é procurado tanto pela emoção quanto para não se sentir mal.
Redes Sociais e Mídias Sociais
Aqui um achado chama atenção: o componente wanting (querer compulsivamente) prediz o uso problemático de forma mais robusta do que o liking (gostar genuinamente). Em outras palavras, o usuário problemático não está nas redes porque ama estar nas redes — ele está porque precisa estar, mesmo que a experiência não seja prazerosa.
Isso é evidência direta da chamada Teoria da Sensibilização ao Incentivo de Berridge e Robinson: o desejo dopaminérgico se descola do prazer real. Você quer muito o que não te faz bem.
O Achado Mais Importante
Em um estudo multi-centro com participantes classificados como usuários não problemáticos, de risco e patológicos, a equipe encontrou que os usuários com uso patológico apresentavam experiências elevadas de ambos — gratificação e compensação — comparados aos outros grupos.
Não é apenas o sofrimento que alimenta a adição. É a combinação de buscar prazer e evitar dor, simultaneamente.
Os pesquisadores chamaram isso de trajetória “feels good, and less bad”: sente-se bem e um pouco menos mal. E essa coexistência, com o tempo, torna o comportamento cada vez mais difícil de abandonar.
O Modelo que Explica a Progressão
Para entender por que alguém chega a esse ponto, os pesquisadores recorrem ao Modelo I-PACE (Interaction of Person-Affect-Cognition-Execution), desenvolvido pelo mesmo grupo de Duisburg-Essen.
O modelo descreve a progressão da adição em três fases, mas com uma ressalva importante publicada em 2025: essa progressão não é linear.
Fase inicial: A gratificação domina. Usar as redes é divertido, conectivo, estimulante. O reforço é positivo.
Fase intermediária: Gratificação e compensação passam a coexistir. O uso ainda pode ser prazeroso, mas já começa a servir como estratégia de coping — uma válvula de escape para ansiedade, tédio ou solidão.
Fase avançada: A compensação cresce e torna-se progressivamente dominante. O comportamento passa a ser o que os pesquisadores chamam de “must-do”: não é mais uma escolha, é uma compulsão. O autocontrole diminui. As metas mudam — não se busca mais prazer, busca-se não sentir desconforto.
O que torna isso particularmente relevante é que, nesse estágio, o comportamento parece habitual, automático — mas não é desprovido de intenção. Os objetivos mudaram, e são selecionados de forma cada vez mais rápida e menos consciente.
O Paradoxo que Você Já Sentiu
Existe uma frase no paper que captura perfeitamente esse mecanismo. Ela descreve o que acontece quando, apesar de consequências negativas (tempo perdido, sono prejudicado, relacionamentos deteriorados), a pessoa continua:
“Por que as pessoas persistem em um certo comportamento apesar das consequências negativas?”
A resposta, agora com respaldo empírico, é: porque o comportamento serve a dois senhores ao mesmo tempo. Ele já não precisa ser bom para ser necessário. Ele apenas precisa ser menos ruim do que o que está por baixo.
Ansiedade, vazio, solidão, insegurança. As redes não resolvem nada disso. Mas adiam. E o adiamento, no sistema nervoso, conta como alívio.
O Que Isso Tem a Ver Com Você
Mesmo sem ter um diagnóstico de transtorno por adição, esses mecanismos operam em graus diferentes em muitos de nós.
Você já abriu o celular sem querer nada de especial, só para não ficar com seus próprios pensamentos por um minuto? Esse é o mecanismo de compensação em ação.
Você já se sentiu irritado, ansioso ou vazio quando ficou sem acesso às redes por algumas horas? Esse pode ser o sinal de que o comportamento está servindo mais à evitação do sofrimento do que à busca de prazer.
Você já percebeu que passa mais tempo online quando está triste, estressado ou entediado — não quando está bem? A compensação como padrão preferencial está estabelecida.
A pergunta que a ciência agora coloca com mais precisão é: o que exatamente as redes estão aliviando para você? E, mais importante: essa estratégia está funcionando, ou apenas adiando?
O Que a Ciência Ainda Não Sabe
Os próprios autores são honestos sobre as lacunas. A maioria dos estudos investiga esses mecanismos como motivos de uso — o que as pessoas dizem que as leva a usar — e não como experiências em tempo real durante o uso.
A diferença é enorme. O que você antecipa sentir e o que você realmente sente são frequentemente coisas distintas. E a ciência ainda não tem dados suficientes para dizer o que de fato acontece no cérebro e no comportamento de uma pessoa enquanto está usando compulsivamente.
Os pesquisadores recomendam o uso de Ecological Momentary Assessment (EMA) — avaliações em tempo real, feitas via celular, capturando as experiências no momento em que ocorrem — e estudos longitudinais que acompanhem a progressão ao longo do tempo.
Esse é o próximo passo. E os resultados, quando chegarem, provavelmente serão mais desconfortáveis do que qualquer coisa que já vimos.
Para Pensar
A ciência da gratificação e compensação nos diz algo simples, mas difícil de assimilar: o problema não é que as redes são ruins. O problema é que elas são funcionais — para as coisas erradas.
Funcionam para aliviar o tédio. Funcionam para amortecer a ansiedade. Funcionam para não estar só com seus pensamentos. E, exatamente por isso, podem se tornar a resposta padrão para qualquer desconforto — substituindo estratégias mais saudáveis de regulação emocional.
A pergunta não é “você é viciado?”. A pergunta é: o que você faz quando se sente mal? E, se a resposta automática for “abro o celular”, vale perguntar o que ficou sem ser resolvido.
Referência principal: Wegmann, E., Knorr, A., Antons, S., & Brand, M. (2025). Systematic Review About Gratification and Compensation in Addictive Behaviors: Key Mechanisms Which Deserve More Attention in Addiction Research. Current Addiction Reports, 12:50. DOI: 10.1007/s40429-025-00663-6.
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