Esperança e Medo do Futuro na Adolescência Conectada

Esperança e medo do futuro marcam a adolescência: estudo com a Escala de Herth revela o que sustenta e o que fragiliza os jovens hoje.

Adolescente sentado à noite com o celular iluminando o rosto, expressando esperança e medo do futuro ao mesmo tempo

Num questionário de doze frases, aplicado a adolescentes paulistanos, duas afirmações ficaram nos extremos opostos.

A mais bem pontuada: “eu posso me lembrar de tempos felizes e prazerosos.”

A pior: “eu tenho medo do meu futuro.”

Esperança e medo do futuro convivendo na mesma pessoa, na mesma tarde — cada um ancorado em algo diferente. Um no passado. Outro no que ainda não aconteceu.


O Que a Pesquisa Fez

Cláudia Yaísa Gonçalves da Silva e Ivonise Fernandes da Motta, da Universidade de São Paulo, foram medir algo que resiste à quantificação.

O estudo integra o projeto “Bem-Estar na Adolescência”, criado para abrir espaço de escuta dentro da escola.

A Escala de Esperança de Herth foi aplicada a 40 estudantes de uma escola pública de aplicação em São Paulo — alunos do 9º ano do Fundamental e do 1º ano do Médio, entre 13 e 16 anos.

Nos dois grupos, a frase com menor pontuação foi “Eu tenho medo do meu futuro”. A com maior foi “Eu posso me lembrar de tempos felizes e prazerosos”.


O Que a Escala Mediu

A memória como reserva

Lembrar de tempos felizes alcançou a maior média nos dois grupos — 3,40 no Fundamental, 3,36 no Médio, numa escala de 1 a 4.

Experiências boas já vividas funcionam como reserva emocional. Não resolvem o presente. Sustentam a hipótese de que dias assim podem voltar.

O afeto em segundo lugar

Logo abaixo apareceu “eu me sinto capaz de dar e receber afeto/amor”.

Vínculos de confiança — família, amigos, professores — emergem como segundo alicerce da esperança adolescente. O achado converge com pesquisa brasileira de quase 1.900 alunos, que já indicava relação direta entre qualidade das relações em sala de aula e desenvolvimento de forças de caráter.

O ponto frágil

“Eu tenho medo do meu futuro” ficou com a pior nota em ambos os grupos: 2,07 no Fundamental, 2,20 no Médio.

Na roda de conversa que seguiu o questionário, os próprios adolescentes nomearam o medo. Decisão sobre faculdade. Receio de fracassar na vida adulta. Temor de desapontar a família.

O meio-termo

Itens como “tenho planos a curto e longo prazos” e “estou otimista quanto à vida” ficaram entre os dois extremos.

O retrato é de um adolescente que ainda projeta futuro — sem entusiasmo, mas sem desistência.


Por Que Passado e Vínculo Pesam Mais

Charles Snyder, criador da teoria da esperança usada como base do estudo, a decompõe em dois elementos.

A rota é a capacidade de traçar caminhos até um objetivo. O agenciamento é a energia para persistir diante de obstáculo.

Quando o futuro parece nebuloso demais, desenhar rota fica difícil — e a esperança perde metade do seu funcionamento.

Aqui entra uma variável que o estudo não mediu, mas que vale considerar: o ambiente informacional.

Boa parte do consumo diário de conteúdo acontece hoje em plataformas que priorizam o que gera reação forte e imediata. Má notícia, crise, comparação. O hábito recebeu o nome de doomscrolling, e ele não cria o medo do futuro sozinho — alimenta um fluxo contínuo de sinal de ameaça, na fase em que o cérebro ainda está calibrando a avaliação de risco.

O item que sustenta a esperança, em contrapartida, vem de experiência presencial, sem edição algorítmica. Memória real pesando mais que qualquer projeção sobre o amanhã.

Vale notar o parentesco com o FoMO: nos dois casos, a mente antecipa perda antes de ela existir.


De Onde Vem o Seu Otimismo

Qual foi a última vez em que o otimismo sobre o futuro apareceu sem passar antes por uma notícia ou por um comentário alheio?

Existe um momento feliz recente que não tenha acontecido diante de uma tela?

E ao pensar em cinco anos à frente, a primeira imagem que vem é de conquista ou de ameaça?

As perguntas não têm resposta certa. Servem para localizar de onde vêm, na prática, a esperança e o medo — e se estão sendo alimentados por vínculo real ou drenados por um feed que raramente traz boa notícia sobre o amanhã.


Os Limites Deste Estudo

A amostra é pequena: 40 adolescentes de uma única escola pública vinculada a universidade, com estrutura de acompanhamento pedagógico acima da média nacional. Generalizar exige cautela.

A pesquisa também não mediu uso de redes sociais nem consumo de notícia negativa. A conexão com o ambiente digital proposta acima é leitura complementar — coerente com a teoria da esperança, não testada pelas autoras.

Fica a pergunta para estudos futuros: quanto do medo do futuro relatado por adolescentes vem da vida concreta, e quanto é amplificado pelo tempo dedicado a más notícias?


Para Encerrar

Esperança e medo do futuro não se anulam. Ocupam a mesma pessoa, às vezes na mesma hora.

O que os dados sugerem é fácil de enunciar e difícil de praticar: cultivar memória boa e vínculo real pesa mais na balança do que qualquer esforço de prever o que vem.

Fica a pergunta para levar: o que está sendo construído — memória que sustenta, ou sinal que alimenta o medo?


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Infográfico sobre esperança e medo do futuro na adolescência

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www.psicologiadasredes.com.br


Referência principal: Silva, C. Y. G., & Motta, I. F. (2025). Avaliação da Esperança em Adolescentes Escolares. Revista de Psicologia, Fortaleza, 16, e025002. 10.36517/revpsiufc.16.2025.e025002.

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

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