A Exegese de Si e o Instagram: O Impacto na Existência

Entenda como o Instagram atua como uma exegese de si e como a busca por validação pode levar ao que a psicologia chama de adoecimento existencial.

Representação visual da tensão entre a imagem idealizada e o cansaço existencial

Vinte fotos quase idênticas do mesmo instante. Cada uma ampliada, examinada: o ângulo do queixo, a dobra da camisa, a luz batendo no rosto. Uma é escolhida. Filtro discreto, mas que muda tudo. Antes do toque final vem a hesitação de meio segundo — o que vão pensar?

Publicado. A partir dali, existe a pessoa e existe a imagem, e a segunda passa a aguardar julgamento.

A cena se repete bilhões de vezes por dia e não se resume a vaidade. Pesquisadores chamam isso de exegese de si instagram: uma interpretação pública e visual da própria identidade, construída para uma audiência que não desliga. O risco embutido é específico — nessa corrida para ser visto, a capacidade de simplesmente ser vai ficando para trás.

A Vitrine Sob Análise

Dois estudos brasileiros publicados em 2024 na revista Psicologia Revista investigaram o fenômeno. Equipes da Universidade Federal de Santa Catarina e da UNIPAC examinaram como jovens adultos usam o Instagram e o que isso produz na saúde mental e na percepção de mundo.

O desenho foi além do questionário. Os pesquisadores observaram comportamento: o que vai para o feed, o que vai para os stories, e como as pessoas se sentem depois de horas de uso.

O que emergiu foi a constatação de que o Instagram opera em duas frequências narrativas distintas — e que o trânsito entre elas revela bastante sobre a relação de alguém com o próprio ser.

O achado central: o Instagram funciona como espaço de narrativa visual de si, onde existir é ser visto. Quando esse uso se torna automático e voltado apenas à validação externa, abre caminho para o que a fenomenologia chama de adoecimento existencial.

Feed e Stories São Departamentos Diferentes

A pesquisa de Seitenfus e Camargo (2024) separa os dois espaços com clareza.

No feed, a exposição é permanente. O corpo assume protagonismo absoluto: 73,4% das fotos analisadas mostravam a pessoa sozinha, com o corpo em evidência. É o território do planejamento, onde cada detalhe passa por decisão.

E há um dado que contraria a intuição. Participantes insatisfeitos com o próprio corpo tendem a publicar mais fotos de corpo em evidência.

A leitura mais coerente é de compensação: a validação externa — curtida, comentário — tentando preencher o buraco de uma autoimagem frágil. O padrão dialoga com o que já foi examinado neste espaço sobre como os mecanismos de gratificação e compensação sustentam o uso mesmo quando ele faz mal.

Nos stories, a lógica muda. Mais dinâmica, mais efêmera, mais interativa. As pessoas se sentem à vontade para mostrar cotidiano e relações. É também onde o uso se torna mais automático — Dutra e Peixoto (2024) descrevem o hábito de rolar e postar sem reflexão como preenchimento artificial do tempo.

Heidegger no Feed

Para explicar o cansaço que as redes produzem, os pesquisadores recorrem a Martin Heidegger e à sua descrição da Era da Técnica: um tempo em que tudo, inclusive a pessoa, passa a ser tratado como recurso a ser otimizado e exibido.

O conceito operante aqui é o de inautenticidade. Em vez de decidir a partir do que se é, o sujeito segue “o Eles” — a voz impessoal da massa, que estabelece o que é bonito, o que é produtivo e o que merece ser postado. O desejo de pertencer e o FoMO empurram para performance contínua.

Buscar um estilo de vida apenas para permanecer no fluxo inicia o processo de adoecimento existencial. Não é doença no sentido médico. É estreitamento de possibilidades: a liberdade de escolher quem se quer ser cede lugar à manutenção obrigatória de uma imagem.

As participantes do estudo descreveram o estado resultante com uma palavra — amorfo. Não saber mais o que se gosta de fato e o que é influência algorítmica.

A Ponte para Você

Algumas perguntas ajudam a localizar o fenômeno na experiência própria.

Você já sentiu uma espécie de bagunça na identidade depois de horas assistindo à vida perfeita alheia?

Você já abriu o Instagram sem querer nada de específico, só para não ficar um minuto com os próprios pensamentos?

Quantas vezes um momento presente foi perdido porque a atenção estava ocupada em planejar como narrá-lo nos stories?

Esses estados — o tédio que empurra para o celular, a angústia de não acompanhar — são o que a fenomenologia chama de tonalidades afetivas. Não são falhas do sistema. São sinal de que a liberdade está sendo comprimida por uma tela.

A exegese de si deveria ser ato criativo. No Instagram, com frequência, vira prisão de vidro.

O Que a Ciência Ainda Não Sabe

Os estudos reconhecem limitações. A coleta online é rápida e volátil, o que dificulta análise interpretativa profunda de cada imagem. E permanece em aberto como variáveis de raça e localização geográfica alteram essas representações sociais do corpo.

O mapeamento do adoecimento existencial digital está começando. O caminho de saída, por ora, continua dependendo de escolha individual e consciente.

Encerramento

A questão não é usar ou não usar o Instagram. A plataforma veio para ficar e oferece conexões que as próprias entrevistadas reconheceram como valiosas. A questão é quem controla a narrativa.

Recuperar o direito à própria desconexão digital não é apenas desligar o aparelho. É reabrir espaço para uma existência que não precisa de plateia.

Fica a pergunta: o que você faria com o seu tempo hoje se ninguém estivesse olhando?

Referência principal: Seitenfus, K. A., Camargo, B. V., Justo, A. M., & Zomkowski, I. (2024). Corpo como apresentação de si: o papel do Instagram para jovens adultos. Psicologia Revista, 33(2), 372-398. DOI: 10.23925/2594-3871.2024v33i2p372-398.

Referência complementar: Dutra, N. S., & Peixoto, M. C. S. (2024). Ser em Meio ao uso das Mídias Sociais: Um Olhar Fenomenológico Existencial. Psicologia Revista, 33(2), 448-473. DOI: 10.23925/2594-3871.2024v33i2p448-473.

Se este tema ressoa com algo que você vive ou observa nas pessoas ao seu redor, neste espaço há outros artigos que exploram os mecanismos psicológicos por trás do uso das redes. Explore, questione, e compartilhe com quem precisa ler.

Infográfico comparando o Feed e a Existência no contexto digital

Gostou da Visão? Aprofunde-se no tema acessando o Blog Psicologia das Redes www.psicologiadasredes.com.br

Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

Artigos: 95

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *