Diferenças de Gênero no Uso Problemático de Redes Sociais
Como homens e mulheres vivenciam o uso problemático de redes de formas distintas? Entenda o ciclo psicológico e a depressão oculta por trás da tela.

Pense na última vez que você tentou passar o dia sem o seu celular. Para algumas pessoas, a ausência da tela cria uma coceira mental constante — o pensamento não sai do que está acontecendo online. Para outras, o problema não é a ausência do celular, mas o peso emocional e os atritos reais que o uso constante já está causando nas suas relações e obrigações, e ainda assim, elas não conseguem parar. Ambos os cenários descrevem um uso que saiu do controle, mas a dor envolvida em cada um deles é fundamentalmente diferente. Existe um labirinto digital, e a forma como nos perdemos nele parece depender de fatores que raramente discutimos.
Foi exatamente essa diferença estrutural que um grupo de pesquisadores da Universidade Normal de Tianjin, na China, e da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, decidiu mapear. No estudo de 2022 liderado por Zihao Wang, Haibo Yang e Jon D. Elhai, eles não queriam apenas somar horas de tela. Eles queriam entender a arquitetura do sofrimento. Ao avaliar 916 universitários, os pesquisadores filtraram um grupo de alto risco e aplicaram uma técnica avançada chamada Análise de Redes. Em vez de tratar o uso problemático como um diagnóstico único, eles mapearam como os sintomas interagem entre si, como peças de dominó caindo em direções diferentes.
O que eles descobriram quebra o senso comum: o núcleo do que consideramos um uso viciante opera com motores psicológicos completamente distintos para homens e para mulheres.
A Saliência Masculina
Quando olhamos para a forma como os homens deste grupo de alto risco vivenciam o uso problemático de redes, o nó central da teia de sintomas é a saliência. Na psicologia, saliência significa uma ocupação cognitiva constante. O homem que sofre deste mal não está apenas usando a rede; ele está pensando nela mesmo quando está desconectado.
Os dados mostram que essa preocupação mental atua como o motor do ciclo. A saliência impulsiona a necessidade de usar por mais tempo (tolerância) e gera irritabilidade quando não se pode usar (abstinência). É um ciclo fechado na própria relação entre o indivíduo e a plataforma, um processo impulsivo-compulsivo quase mecânico de busca por estímulo.
O Conflito Feminino
Para as mulheres, a arquitetura do sofrimento se organiza ao redor do conflito. O nó central não é necessariamente pensar sobre a plataforma o dia todo, mas sim o choque entre o tempo gasto online e o mundo real — os atritos nos relacionamentos interpessoais, a negligência de tarefas importantes e o sentimento de culpa.
Os pesquisadores notaram uma dinâmica reveladora: quando o conflito se agrava, há uma tentativa — muitas vezes frustrada — de suprimir a saliência. As mulheres percebem ativamente o dano que o comportamento está causando à sua vida prática, mas a tentativa de refrear o uso frequentemente esbarra em outros fatores emocionais.
O Achado Mais Importante: O Vazio em Comum
A verdadeira virada narrativa ocorreu quando os pesquisadores colocaram os sintomas do uso problemático lado a lado com os sintomas de ansiedade e depressão generalizada.
Independentemente de o uso ser movido pela saliência (homens) ou pelo conflito (mulheres), o sintoma central absoluto que ligava o uso problemático à ansiedade e à depressão foi a “Falta de Entusiasmo”.
O que isso significa? Na teoria psicológica moderna, especialmente no modelo de interação de comportamentos aditivos (I-PACE), nós começamos a usar algo online por prazer (gratificação). Mas, nas fases tardias e mais perigosas, nós usamos para fugir de um estado emocional aversivo (compensação).
A centralidade da Falta de Entusiasmo nos mostra que a tela, nesses níveis de alto risco, já não é um palco de descobertas ou diversão. Ela se tornou um analgésico existencial. O uso problemático das redes se transforma em uma muleta para pessoas que perderam o interesse e a energia pelas coisas do mundo real. Os homens tentam preencher a apatia com hiperfoco cognitivo na plataforma; as mulheres acabam usando a plataforma como escape, gerando atritos reais que, por sua vez, acentuam a desmotivação. É um loop perfeito de reforço negativo.
Você já abriu um aplicativo no seu celular não porque estava buscando uma informação específica, ou porque algo excitante aconteceu, mas simplesmente porque tudo ao seu redor parecia desbotado ou exaustivo? Você já se pegou rolando um feed infinito não para sentir prazer, mas apenas para anestesiar uma falta de vontade crônica de estar presente na sua própria vida?
Esses são os sinais de que a rede deixou de ser uma ferramenta de conexão e passou a atuar como um mecanismo de suporte para o seu estado emocional. Quando a apatia governa, o algoritmo trabalha como o substituto perfeito da vitalidade: ele exige zero esforço e fornece uma falsa sensação de movimento.
Apesar da riqueza desses achados, a ciência ainda caminha com cautela. Por ser um estudo transversal, os pesquisadores não conseguem afirmar se a depressão e a falta de entusiasmo causam o mergulho nas redes, ou se é o uso contínuo que acaba minando a vitalidade existencial das pessoas. Provavelmente, estamos lidando com uma via de mão dupla. Além disso, as formas de escape digital estão mudando tão rápido quanto os algoritmos evoluem, exigindo estudos de longo prazo que consigam mapear a vida dos adolescentes segundo a segundo.
A discussão sobre redes sociais muitas vezes é reduzida a contar horas de tela, mas essa é uma métrica vazia. O que a análise de redes nos mostra é que o comportamento aditivo não é uma doença de excesso de tempo, mas um sintoma de algo mais profundo. Homens podem se afogar na preocupação mental constante, enquanto mulheres podem se debater nos conflitos práticos gerados pelo uso, mas no fundo do labirinto, ambos fogem do mesmo monstro: a apatia e a ausência de sentido.
A pergunta final, portanto, não é “quantas horas você passa no celular?”. A verdadeira questão é: de que vazio você está tentando escapar quando a tela acende?
Referência principal: Wang, Z., Yang, H., & Elhai, J. D. (2022). Are there gender differences in comorbidity symptoms networks of problematic social media use, anxiety and depression symptoms? Evidence from network analysis. Personality and Individual Differences, 195, 111705. DOI: 10.1016/j.paid.2022.111705.
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