Autoestima e Redes Sociais: O Peso da Personalidade

Como a relação entre autoestima e redes sociais afeta sua mente? Descubra o que a ciência diz sobre o peso da sua personalidade nesse ciclo digital.

Jovem adulto refletindo sobre autoestima e redes sociais diante do brilho de uma tela de smartphone no espelho, com expressão de autocrítica

Duas pessoas percorrem o mesmo feed pelo mesmo tempo. Uma sai indiferente. A outra sai se achando inferior, mais sem graça, insatisfeita com a própria rotina.

A diferença entre as duas não está no aplicativo. Está num filtro que opera antes dele.

A relação entre autoestima e redes sociais já foi examinada neste espaço em termos gerais. O que a pesquisa recente acrescenta é a variável que decide o tamanho do estrago: a personalidade de quem está olhando.


O Que a Ciência Estudou

Hala Abd Ellatif e Hayam Alibrahim conduziram um estudo quantitativo na Princess Nourah Bint Abdulrahman University, em Riad, com 368 jovens sauditas entre 18 e 26 anos.

Três instrumentos validados em árabe sustentaram a medição.

A Escala de Mídias Sociais, desenvolvida pela Dra. Asma Kelawy, quantifica frequência de uso e grau de distração provocado na rotina.

O Inventário dos Cinco Grandes Fatores mapeia personalidade nos cinco eixos do modelo OCEAN: extroversão, conscienciosidade, neuroticismo, abertura e amabilidade.

A Escala de Autoestima de Hudson mede senso de valor próprio — e funciona de forma invertida, com pontuação alta indicando maior desvalorização.

O uso intenso e disperso das redes apresentou associação robusta e prejudicial com a autoestima. E a intensidade desse efeito varia drasticamente conforme os traços dominantes de cada indivíduo.


Os Números

A relação direta

A correlação de Pearson entre uso de mídias e escore de desvalorização foi de $r = 0{,}261$ ($p < 0{,}01$). O teste de tamanho de efeito registrou $\eta^2 = 0{,}335$.

Em linguagem prática: efeito de grande magnitude. Quanto mais ativo e disperso nas mídias, menor a autoestima.

Quem usa mais

A análise multivariada cruzando os cinco traços com intensidade de uso desenhou um padrão bem definido.

Extroversão e conscienciosidade ($\eta^2 = 0{,}132$ cada) lideram a associação com uso de redes. Jovens sociáveis ampliam conexões; os organizados buscam informação prática e compartilham conhecimento.

Neuroticismo e abertura ($\eta^2 = 0{,}127$) também aparecem com conexão robusta.

Amabilidade ($\eta^2 = 0{,}074$) foi o único traço sem associação significativa com quantidade de uso.

Quem sofre mais

Quando o desfecho analisado é a autoestima, a personalidade assume peso preditor massivo.

O neuroticismo despontou como preditor de baixa autoestima com tamanho de efeito de $\eta^2 = 0{,}540$ — o maior isolado do estudo. Instabilidade emocional alta significa vulnerabilidade intensa a sentimento de inadequação online.

Na direção oposta, conscienciosidade ($\eta^2 = 0{,}446$), extroversão ($\eta^2 = 0{,}440$), abertura ($\eta^2 = 0{,}434$) e amabilidade ($\eta^2 = 0{,}403$) se comportaram como preditores fortes de autoestima resiliente.

Variável Estudada Indicador Estatístico Principal Efeito Prático na Amostra ($N=368$)
Uso de Redes vs. Autoestima Correlação de Pearson $r = 0,261$ / $\eta^2 = 0,335$ Uso mais intenso reduz diretamente a autoestima (grande efeito).
Influência do Neuroticismo na Autoestima ANOVA Multivariada / $\eta^2 = 0,540$ O maior preditor isolado de vulnerabilidade e baixa autoestima.
Extroversão e Conscienciosidade no Uso ANOVA Multivariada / $\eta^2 = 0,132$ Traços mais ativos no engajamento e uso diário das mídias.
Uso Médio Masculino vs. Feminino Média Homens: $35,47$ / Média Mulheres: $34,09$ Jovens do sexo masculino foram ligeiramente mais ativos ou distraídos pelas redes.

Por Que a Personalidade Decide

A Teoria da Comparação Social explica a base do processo: navegar produz comparação automática.

Traço alto de neuroticismo predispõe a processar essa comparação de forma autocrítica, com foco nas próprias falhas — a comparação social ascendente clássica, que amplia a distância entre o eu real e o eu idealizado da tela.

Resta explicar por que extrovertidos e conscienciosos usam muito e não se machucam.

A resposta está no tipo de uso. Alta instabilidade emocional se traduz em consumo passivo, observar em silêncio por receio de rejeição — modalidade já identificada como catalisadora de sintomas depressivos. Extrovertidos usam a rede de forma ativa, para alimentar interações que já existem offline. E conscienciosos operam com foco instrumental — estudo, trabalho, organização —, o que os mantém fora do circuito de validação estética.

Três eixos distintos, portanto:

[Alto Neuroticismo] ----------> Consumo Passivo / Comparação Estética ----------> Autoestima Fragilizada
[Alta Extroversão] ----------> Interação Ativa / Ampliação Social --------------> Autoestima Resiliente
[Alta Conscienciosidade] ----> Uso Instrumental / Foco Prático -----------------> Autoestima Preservada

Qual Traço Fala Mais Alto

Quando o aplicativo fecha e sobra um vazio, qual traço está falando mais alto?

Você se reconhece como alguém mais ansioso e reativo a opinião alheia?

Ou usa as redes basicamente para mandar mensagem e organizar compromisso?

A tecnologia não age como veneno padronizado. Funciona como amplificador do que já está presente. Quem entra buscando preencher lacuna de valor com métrica de curtida encontra um sistema treinado para explorar exatamente isso.

Mapear a própria inclinação é o que permite ajustar o hábito — deslocar o uso do modo comparativo para o instrumental.


O Terreno Não Mapeado

O desenho transversal registra um instante. A causalidade permanece indefinida: as redes rebaixam a autoestima, ou jovens com autoestima já baixa e traço neurótico procuram as redes de forma compensatória?

A amostra também tem desequilíbrios. Distribuição de gênero bastante assimétrica — 75,97% de mulheres — e concentração na região central da Arábia Saudita.

Estudos longitudinais e investigação específica sobre aplicativos de vídeo curto são os próximos passos. E vale lembrar que classe socioeconômica e cultura já se mostraram capazes de amortecer ou acelerar a insatisfação digital.


Autoconhecimento Como Defesa

Saúde mental na era digital exige letramento psicológico tanto quanto letramento midiático. Autoestima não é pontuação de aplicativo — estrutura-se offline, no enfrentamento de dificuldade concreta e em relacionamento com profundidade.

Entregar a avaliação do próprio valor a um algoritmo projetado para reter atenção é armadilha de custo alto.

Ao bloquear o celular hoje, a pergunta que vale não é sobre horas. É: a voz que julga o seu valor é sua, ou é o eco de um sistema que aprendeu onde você é frágil?


Referência principal: Abd Ellatif, H., & Alibrahim, H. (2023). Social Media Effect on Self-Esteem in Relation to Personality Traits among Young Adults in Saudi Arabia. Sustainability Education Globe, 1(1), 11-47. DOI: 10.12816/seg2023.01.01.03


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Infográfico sobre autoestima e redes sociais resumindo a influência dos traços de personalidade Big Five na intensidade de uso de mídias e no nível de autoestima dos jovens

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Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento psíquico, procure um psicólogo, psiquiatra ou o CVV pelo telefone 188 (24h, gratuito).
Marcelo Kuchar
Marcelo Kuchar

Professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), mestre em Ciência da Computação e pesquisador em Visão Computacional e Inteligência Artificial. É também acadêmico de Psicologia e Filosofia. No Psicologia das Redes, traduz estudos publicados em periódicos revisados por pares sobre o impacto das telas na atenção, no sono e na saúde mental — sempre com a referência e o DOI ao final do texto.

Artigos: 95

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